
Mês de junho - Festa junina - Comidas típicas - Forró e muita animação! Misture todas essas palavras e voilà: você tem uma típica reportagem televisiva sobre a tradição nordestina!
Como não bastassem essas reportagens clichês repetidas exaustivamente feriado a feriado, é possível notar a crescente valorização de um estilo musical totalmente vendido a interesses financeiros e ao (mau) gosto “do povão”.
Os ritmos que tradicionalmente compõem o forró são: o baião, o xote, o xaxado e o coco. O baião é composto (normalmente) por um “zabumbeiro”, um “triangueiro” e um “sanfoneiro”. Trata de acontecimentos tipicamente regionais, tendo por cenário o sertão e/ou a zona da mata e o dia-a-dia do matuto como foco da letra, tal qual a vida do boiadeiro, a “prantação”, o menino “buchudo”, etc.
O coco, por sua vez, tem um background negro mais forte, sendo cantado em roda à la Lia de Itamaracá ou no estilo embolado de Jackson do pandeiro.
O xote é uma dança de origem alemã, repassada à população rural através da presença de imigrantes, principalmente no governo de D. Pedro II.
O xaxado, popularizado por Lampião e seu bando, consistia numa dança feita apenas por homens, sendo assim chamado pelo som que os sapatos produziam no chão, em contato com os cascalhos.
Ignorando a linha, a cena, os instrumentos musicais utilizados e toda essa respeitável tradição, eis que surge o mal-afamado “forró-eletrônico”. Esse novo estilo musical (pois não é forró de jeito nenhum!) é composto normalmente por 2 vocalistas (um homem e uma mulher, em 99% dos casos), um tecladista de guaraja ou lambada, um baterista, um guitarrista, um baixista e uma banda de metais, além de uma penca de mulher gostosa. Já pela descrição, é possível notar a total não-semelhança com o forró pé-de-serra, pois nem a presença da sanfona, instrumento símbolo do forró, foi respeitada.
O curioso desse estilo musical é que atingiu tal prestígio entre os recifenses, que instituiu um costume nas classes sociais mais abastadas: a viagem até cidades de interior para assistir seus shows em época de São João.
Como um estilo musical relativamente recente como o “forró-eletrônico” consegue ter uma força tão grande a ponto de deslocar a nata da sociedade recifense a uma cidade da zona da mata, por exemplo?
As apresentações dessas bandas são extremamente previsíveis: alinham-se em frente os vocalistas, sendo seguidos pelos casais (que fazem verdadeiras acrobacias) e a banda mais atrás. Quase sempre o vocalista está usando uma camisa pólo com um escudo ou um número na frente, calça jeans e tênis, dançando como um playboy dançaria em frente ao posto de gasolina. A diferença de voz entre um cantor de um grupo a outro inexiste, de modo que somente um phd no assunto poderia perceber a diferença no timbre de voz de um “Riquelme” para um “Raí”.
Suas letras incitam o alcoolismo, o materialismo, a promiscuidade e outros “ismos”, que disseminam entre o público um verdadeiro culto à prostituição, caracterizando dessa maneira uma cultura de massa extremamente inaceitável e perigosa. Ex.os: “Dinheiro na mão, calcinha no chão. Dinheiro sumiu, calcinha subiu”, “Vamos-se embora pr’um bar, beber, cair e levantar!”, dentre outras patifarias.
De que forma pode o governo (mesmo bem-intencionado) tentar combater as mazelas sociais se esses indivíduos estão sempre lá, martelando na cabeça de todos a “bagaceira e a raparigagem” como ideal de vida?
A meu ver, todo esse processo está tomando um rumo desenfreado e deve ter suas rédeas puxadas. A cidade de Caruaru, por exemplo, numa atitude exemplar, proibiu a exibição de tais aberrações em palcos locais, preservando seus cidadãos do lixo recifense.
Não há mal algum na adequação um estilo musical a uma situação, desde que esta preserve ao menos as características principais da linha, de preferência não a vendendo a interesses puramente capitalistas, desrespeitando seus pró-genitores e admiradores de fato. Basta de raparigagem!